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22 de Outubro de 2019

Quando o excesso de confiança vira pessimismo econômico

Títulos financeiros CLOs podem desencadear uma nova crise econômica global no estilo subprime de 2008

Andre Candido Almeida, Advogado
Publicado por Andre Candido Almeida
há 2 meses

Por mais que a ideologia consiga impregnar o debate econômico entre esquerda e direita aqui e democratas e republicanos nos EUA, os estudos de casos demonstram que economias que possuem um alto grau de endividamento público quando se aproximam do pleno emprego despertam o fantasma da inflação ou da estagnação econômica. De um lado, o grau de endividamento público faz com que o governo deixe de investir em inovação e infraestrutura, por outro lado, o pleno emprego encarece o salário, reduz o lucro do empresário, que passa a não ver mais estímulo na economia real. Diante deste cenário, o governo emite títulos da dívida pública para compensar a redução da arrecadação em razão da estagnação da economia e o empresário/investidor passa a apostar no mercado financeiro (CLOs), agravando ainda mais a estagnação econômica. Desta forma, o Banco Central (FED) pode reduzir os juros para estimular o crescimento econômico, mas estimular bolhas e quebras como as ocorridas em 2008 e 2001 nos EUA.

O capitalismo só funciona se não houver problema de distribuição da riqueza gerada pela produção. Tem de haver equidade na distribuição do lucro, da renda e do salário. O que vemos constantemente é o problema da distribuição da parte mais vulnerável que é o salário. Há um aumento vertiginoso da renda financeira considerada vegetativa que não reproduz crescimento econômico. Desta forma, a tendência é a redução do ritmo de crescimento da economia, redução de lucros, desemprego e recessão. Se o ouro está valorizado é pelo motivo da alta procura que o torna mais escasso. Voltaremos ao padrão ouro do metalismo mercantil. As pessoas não acreditam mais na economia real (eufemismo para queda da confiança nos negócios). Adam Smith deve estar se revirando no túmulo, pois em sua concepção a riqueza de uma nação advém da sua produtividade através do crescimento econômico gerado pelo ciclo do lucro, da renda e do salário de forma equilibrada que estimula a distribuição da riqueza, e não o seu entesouramento.

Quando o dólar apresenta uma alta em relação ao real é para evitar fuga de capital em razão da aversão ao risco dos investidores que passam a demandar com mais ferocidade a moeda americana, além tentar atrair mais compradores para as exportações nacionais que pagam em dólar. É como se fosse uma balança, pois de um lado há o estímulo para evitar a fuga e do outro há o estímulo para a entrada da moeda. A guerra de tarifas econômica entre EUA e China, encarecendo os produtos produzidos entre ambos, pode direcionar ambos os mercados para outros países. Hipoteticamente, se EUA e China elevam os preços entre si, a saída é procurar outros mercados. A valorização do dólar torna os produtos brasileiros exportados mais competitivos, pois monetariamente o dólar teria maior poder de compra no Brasil. Mas por outro lado, o efeito inverso é sentido na bolsa de valores, pois a venda de ações reflete o que ocorre na economia internacional. A queda do índice Bovespa reflete a oportunidade na margem racional dos investidores de transferir seus ativos para mercados mais seguros, vendendo suas ações, comprando contratos em dólares (swap cambial) com garantia de resgate pelo valor da cotação da data da contratação, se não houve maior valorização do dólar ou até a compra de ouro. Ademais, caso haja maior redução de juros nos EUA com a finalidade de evitar uma recessão, estimulando maior liquidez nos EUA, os negócios ancorados nos países emergentes, mais suscetíveis aos reflexos de uma recessão global, podem se transferir para os EUA. Por outro lado, a valorização do dólar encarece as importações e a liquidação dos contratos comerciais celebrados tendo como moeda o dólar. O cenário internacional que se avizinha pode piorar o estimulo à economia brasileira, de modo que é fundamental a retomada do crescimento interno pela via da criação de emprego e o estímulo do fluxo da renda.

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